Desde cedo sonhava em ser mãe, de uma menina, não poderia ser diferente… escolhi o nome com oito anos, sonhei com a pequena inúmeras vezes mesmo antes de saber que a teria.
Até que no Carnaval passado, mesmo com cuidados para que não acontecesse, o teste deu positivo. No começo uma insegurança enorme tomou conta de mim, mas não demorou muito para que tudo na minha vida se transformasse em amor.
Aí vieram os enjôos, as intermináveis horas de ânsia e vómitos… Foram cinco meses inteiros de caos, nas consultas médicas o que me diziam era que estava tudo ótimo, o bebê estava perfeito, meu peso, minha pressão… Assim que os enjôos passaram, veio a possibilidade de pré-eclampsia… Senti medo, estava sozinha, alias passei toda gravidez lutando contra a solidão, tive medo de morrer, fiz meu marido jurar que se eu morresse ele cuidaria da nossa filha sem entrega-la à educação das avós. Passei dias pesquisando sobre o que era, quais os riscos, estatísticas… quanto mais eu me instruía a respeito da pressão alta na gravidez mais desesperada ficava…
Veio mais um ultrasson, e tudo continuava estável apesar dos riscos, quando entrei no sétimo mês de gravidez, sensível até o último fio de cabelo, me sentindo solitária (acho que os homens precisavam engravidar junto com a gente… barriga crescer, mudanças hormonais… TUDO), decidi que tinha que me preparar para o nascimento da Rayara, e isso incluía trabalhar muito para ter dinheiro suficiente e não depender de ninguém. E foi o que fiz… Chegava em casa em frangalhos, dormia na hora do almoço para conseguir voltar…
Cheguei as 32 semanas de gestação na ultima semana do mês de agosto, e percebi que ali era meu limite… não ia dar pra continuar no mesmo rítimo… mas como trabalho com participação nas vendas, um mês bem trabalhado reflete no seguinte, então era isso, faltavam quase 2 meses para o nascimento da pequena, no ultimo mês eu entraria de licença para poder curtir um pouco a barriga, vivenciar a gravidez… Contrariando a maioria das pessoas, eu não tinha vontade nenhuma que meu estado “gravidício” acabasse, me sentia inteira, bonita, minha barriga era bem redondinha …
Nesta semana, entre o dia 25 e 30, comecei a fazer xixi a cada cinco minutos, liguei para o médico, falei com algumas amigas que já eram mães e todos diziam que era normal, até que na sexta-feira, dia 30 de agosto (32 semanas e 5 dias), após uma discussão em casa, bateu uma tristeza avassaladora, estava cansada… exausta mesmo, não dormi a semana toda por conta do “xixi”, e não conseguia me fazer entender… Levantei do sofá, e pensei “Merda, fiz xixi na calça”, fui ao banheiro, tomei um banho e resolvi dar um pulo na maternidade (que fica há cinco minutos de casa), meu marido me levou… Mas não me trouxe de volta!
Tinha de ficar internada até o nascimento do bebê, repouso mais que absoluto pois a bolsa havia rompido, e a situação era séria… eu estava há 5 dias com a bolsa-rota, aumentando muito os riscos de infecção e sofrimento fetal.
Passei aquele sábado inteiro entre exames e crises compulsivas de choro, bastava estar sozinha naquele quarto de hospital para bater um desespero… mas não entendo o motivo, não consegui expor isso para ninguém… sentia que não podia me mostrar fraca, BESTEIRA!
A noite, fiquei ali, na companhia de dois leitos vazios, de hora em hora as enfermeiras vinham tirar minha pressão, e escutar os batimentos fetais. Até que por volta das duas comecei a sentir cólica, chamei a enfermeira, e ela questionou se eram contrações… tive vontade de rir, pra mim estava claro que não eram… não era nada insuportável, doía, mas nem de longe tinha vontade de gritar, chorar nem tão pouco achei que fosse morrer. Então respondi que achava que não.
Mas na cara das duas enfermeiras… pavor! Liguei na hora para o Guilherme dizendo que não era pra se preocupar, mas para tirar o carro da garagem pois talvez nossa rebenta estivesse para nascer.
Não deu outra as quatro da madrugada, com contrações de três em três minutos, eu discutia com o médico sobre a possibilidade de um parto normal… Foi ele quem riu! Prematuros não devem nascer de parto normal!
As cinco e treze, com contrações quase que ininterruptas e oito dedos de dilatação, minha filha veio ao mundo por um corte aberto à faca… Me deixaram vê-la por menos de dez segundos, tiraram-a de perto de mim… e da-lhe costurar e costurar as mil camadas abertas em meu ventre.
Colocaram-me de frente para um relógio numa sala, só pode ser um sádico a fazê-lo… onde já se viu colocar uma mãe anestesiada, longe da cria para contar os minutos? Até que uma enfermeira carrancuda disse que assim que eu conseguisse mexer as pernas poderia ir para o quarto… nunca fiz tanta força nas pernas, imóveis, só para mostrar que já podia ir… Só não me livrei da coceira que a morfina deixou…
Já no quarto soube que minha filha estava bem apesar de respirar com ajuda de aparelhos e que eu poderia vê-la a noite. De novo estava eu a contar os minutos…