Era tarde da noite, o silencio gritava na janela, a vida suspirava em minha porta…
Era a felicidade na ausência da tristeza, era o mundo retorcido a me driblar.
Vida e morte, e cadê a linha que as separa? Alegria, euforia? Drogas, sanidade, medo, coragem…
A arma apontada para face, a mão tremula e o dedo no gatilho, era a morte!
A vida agora mostrava seu limite, e ele não era belo, e ele não era feio, era simplesmente a morte.
Largo a arma na mesa de cabeceira, caminho até o banheiro, encho a banheira, ponho sais, deixo a espuma se formar… fico nua, o barulho ensurdecedor do silencio continua, entro na banheira, relaxo… não é todo dia que se morre, e é preciso planejar, é preciso preparar tudo…
Fico de molho na água, que borbulha cheirosa e por horas penso na vida, nos meus planos falidos, nos encontros e desencontros que me proporcionei, penso na dor que as pessoas próximas sentirão ao ler meus últimos relatos, então pela primeira vez no dia gargalho ansiosa por deixar um legado…
Saio enrolada em uma toalha branca e felpuda rumo ao quarto, olho a arma a me esperar, penso em que roupa usarei, branco, esta a cor perfeita, me visto.
Olho-me no espelho e penso na manchas de sangue…
Corro para o guarda roupa, olho os pretos, visto um, troco por outro, mais um… outro… nada parece bom o suficiente para um momento tão grandioso, ate que ponho o vestido que usava no meu casamento, e penso nas machas…. acho que cairão bem com a cor e o modelo do vestido, agora é a hora de vestir o sapato. Pronto!!!
Agora já posso morrer.
Escrevo bilhetes emocionados para o marido, filhos, pais e melhores amigos, deixo-os sobre a cama.
Passo a mão no cabelo pela ultima vez, olho-me no espelho pela ultima vez, respiro pelas ultimas vezes.
Pego a arma cromada e bonita, aponto para cabeça, aproximo da orelha direita, o gelado da arma me causa um calafrio, ponho o indicador no gatilho, e ouço uma voz me chamar…
Antes entrem no quarto assustados pelo barulho, jogo-me pela janela do décimo oitavo andar.