Publicado por: Verena Meneghelli | novembro 4, 2007

Vinte dias…

Rayara Lua

Quinze horas depois de arrancarem minha filha de dentro de mim, liberam-me para um banho e uma “visita” à Rayara. Entrei no chuveiro, lavei a cabeça sob olhares, no mínimo curiosos, da enfermeira. Coloquei um pijama comportado, perguntei onde ficava a neonatal… e lá fui eu, desci de escadas para não esperar o elevador… o dia durou a eternidade, não podia mais esperar.

Quando bati os olhos na pequena, ela dormia profundamente, com um tubo e uma sonda dividindo espaço em sua pequena boca . Senti medo… olhei a minha volta, o clima frio, ela ali, só de fralda numa incubadora…

Rayara Lua ficou vinte dias na UTI. O curioso é que nesse período todos os referenciais mudam. Um ml de leite passa a ser uma quantidade enorme, ver que seu bebezinho vai receber um, dois ml a mais de leite é uma alegria. Ganhar 5 gramas no peso é motivo para festejar: “nossa, como ela engordou!”. Essas pequenas coisinhas passaram a ser grandes vitórias. Outra coisa interessante é como os bebês que nascem no tempo certo ficam parecendo “gigantes”, é estranho mas comecei a achar os pequenos bem mais bonitos…. Durante todo o tempo que estive no hospital para estar perto da minha cria, vi bebês chegarem à UTI, bem como acompanhei de perto os três (Karol e Katarine (as gêmeas) e o Daniel )que já estavam lá antes da Rayara. Na UTI neonatal se forma uma aliança entre os pais, nós nos apoiamos, nos preocupamos com todos os bebês que fazem companhia para o nosso, um torce pelo outro. Sem contar a equipe médica e de enfermagem que no fim das contas viram nossa referencia diária. Durante 20 dias vivi no hospital. Chegava de manhã e saía à noite. No período em que estava lá, cantava para ela, fazia-lhe carinho, lia, acalmava seu choro. Sinto-me feliz por ter acompanhado cada passo de sua recuperação, cada grama de peso ganho. Ela ainda era tão pequenininha. As roupinhas de recem-nascido ficavam grandes. Como fiquei muito nervosa, meu leite diminuiu nesse período, sabia da importância do aleitamento e fiquei muito triste e com medo de não poder amamentá-la. Somente com 20 dias de nascida é que teve alta, ou melhor, nós tivemos, pois só me senti saindo do hospital naquele momento. Mãe de prematuro não tem resguardo, não tem tempo para seguir as ordens médicas do pós operatório e ainda deixa na UTI um pedacinho de si todos os dias.

Passado os sustos, posso dizer que a experiência foi gratificante, acreditei na minha filha, na vontade de viver do Daniel, nas gêmeas… Os valores mudaram. Busquei força a cada dia para levantar, para continuar mesmo sozinha ali… Sabia que ela precisava de mim, mesmo exausta eu queria estar ali com ela…


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