A Nova Ordem
(Ou não)
Reordenando a paz mundial, no dia 30 de fevereiro, artistas de rua se uniram a filósofos nômades e pagãos e saíram às ruas da capital de Djibuti para protestar.
Nus, munidos de textos, tintas e instrumentos musicais fizeram barulho, pessoas saíram às ruas intrigados com a situação, e sentiram-se tão à vontade que tiraram as vestimentas, pegaram suas melhores panelas e tudo que pudesse agregar forças ao movimento e se uniram. Tudo tinha um tom surrealista, de sonho, mas com tanto barulho seria difícil qualquer um estar dormindo. Realmente as pessoas acordaram, finalmente as pessoas acordaram. Despertaram de uma noite escura e demorada.
Seguiram por bairros nobres e passando por estes surpreendentemente notaram que a burguesia estava cansada de ler colunas sociais e de ter, ter por ter, ter de tudo, ter por nada, e resolvera ser, ser alguma coisa, ser em si, ser um ser em si, ser humano, tomar corpo de algo e não manter mais a plástica podre estética perplexa e infeliz da tão almejada beleza quadrada.
A polícia amedrontada, atacou. Fizeram barricadas nas ruas próximas às instituições de poder, usaram balas de festim, gás-lacrimogêneo, mas tudo parecia em vão. Sem mais o que fazer, sacaram as armas e do meio do exercito ouviu-se um grito, e era a voz do general que dizia: “Eu abdico do poder, da instituição, do exército e da pátria. Deixo minha farda aqui e vou pra vida”. A voz envelhecida e rouca do general soou em tom de desabafo, como um jovem que acabou de descobrir o anti-poder da mudança em suas mão.
Alguns soldados esbravejaram, outros pararam para pensar, os outros começaram a despir-se e o acompanharam. Cada vez mais pelados aderiam a causa, que não sabiam muito bem qual era, mas aderiam, aos poucos a massa ia tomando uma forma coletiva, os atos se seguiam em tom de desabafo, como se estivessem tirando a casca da laranja, chegando à essência, ácido momento estavam vivendo, mas com um gosto de vitória, já ali, mesmo que acabasse assim, mesmo que tudo congelasse e o tempo parasse, a vitória não cessaria, pois sabiam que o tempo parou porque a história chegou no limite, porque chegaram à liberdade.
Agora o exercito estava nu, o barulho não era de tiros mas soava como uma festa, as barricadas, à quem passava por ali, dava a impressão de grandes fogueiras.
Os jornais do mundo inteiro se dirigiam para Djibuti, em pouco tempo os jornalistas também estavam nus, estes munidos de câmeras fotográficas e filmadoras, documentavam o acontecimento.
Os clicks fizeram parte da grande orquestra, aqueles que relatavam por escrito o grande dia, preferiram estar perto dos filósofos e assim o fato de mais inteira veracidade ganhou fundamentação teórica.
TVs do mundo inteiro transmitiam ao vivo aquelas imagens, helicópteros sobrevoavam a cidade, as lideranças mundiais pensavam em mandar as forças armadas para aquela capital. Reuniões de cúpulas por todos os continentes, civis começavam a dirigir-se para as ruas para seguir o exemplo e movimentar, e a minoria taxada de louca, virou maioria.
Foi naquele dia que o louco virou são, a polícia, bandido, e o capital tornou-se o fraco. O artista foi à rua e amou, poetas passaram a ser respeitados, ouvidos, cantandos e reinventados. A liberdade virou lei! Sem que houvesse lei para isto.